I. Introdução geral
Muitas vezes temos uma compreensão relativamente inadequada e parcial sobre o significado da palavra “santidade”. Na maioria das vezes, pensamos que santidade está ligada unicamente ao indivíduo que a busca. Nesse sentido, a santidade diria respeito restritivamente a uma pessoa. Todavia, os textos bíblicos nos sugerem que a santidade, ou o fato de ser santo, se manifesta principalmente na prática da justiça. Dessa forma, ser santo e/ou buscar a santidade não significaria tão somente aquilo que faço para Deus, mas também, e especialmente, aquilo que faço para os outros.
II. Comentários aos textos bíblicos
1. I leitura: Is 6, 1-2a.3-8
Para o profeta Isaías, ser santo significa principalmente a prática da justiça: “O Deus santo mostra sua santidade através da justiça” (Is 5,16). Isaias entende que a santidade passa, automática e predominantemente, pela purificação dos pecados de injustiça (Is 1,10-20). Na vocação de Isaías no templo, sobressai sua visão do “santo, santo, santo” (Is 6,3). Visto que o Deus santo de Israel julga com justiça e exige a prática da justiça (Is 11,3-6), nada mais evidente que exigir do seu povo a mesma prática (Is 5,18-19). Isaías salienta que a proposta de santidade, enquanto luta pela justiça, rejeita todas as formas de ritualismos que não sejam acompanhadas da efetiva prática da justiça. É preciso lembrar que os relatos de vocação trazem sempre uma dimensão coletiva. Deus chama para que se preste um serviço ao povo e, por conseguinte, o beneficiário da vocação não é, em primeiro lugar, aquele que é chamado.
É por meio do impacto ocasionado pela declaração da santidade de Deus que a pessoa chamada se torna consciente de sua impureza como ser humano. Se de um lado encontramos a santidade, do outro encontramos a impureza. A impureza é causada pelo pecado e por qualquer comportamento desfavorável à comunidade. O texto mostra a reação do profeta diante da visão. Nota-se a purificação e consagração de sua boca, exatamente porque ele será destinado a falar. Além disso, convém salientar que o texto considera que tanto o profeta quanto os destinatários possuem “lábios impuros”. No entanto, somente o profeta é objeto de purificação. E os destinatários, os líderes, o povo? Vai depender de como irão responder à mensagem do profeta. Morar em meio a um povo de lábios impuros implica também “estar aprisionado na solidariedade da culpa coletiva”. Há diálogo entre os “dizeres”: o profeta ouve, mas também fala. Isaías e Javé se comunicam. Há protagonismo do profeta e, necessariamente, uma autoafirmação como sujeito que tem direito à palavra. Javé não manipula o discurso. Que fique claro: no relato de vocação de Isaías não existe, por parte de Javé, o monopólio da palavra.
2. II leitura: 1Cor 15,1-11
A afirmação da segunda leitura é fundamental para a fé cristã: Jesus morreu e ressuscitou. Trata-se do credo que Paulo recebeu e estava anunciando. Ele, Paulo, não é discípulo sozinho. É, sim, continuador de um caminho iniciado por muitos outros. Consciente de que é apenas mais um elo na grande corrente da fé, Paulo se apresenta como continuador do projeto de evangelização. Na expressão “segundo as Escrituras” podemos perceber que, para os primeiros cristãos, recorrer às Escrituras era o modo de afirmar a veracidade do presente que viviam. Assim, os primeiros missionários tinham a necessidade de demonstrar o caráter de cumprimento profético dos fatos que testemunhavam.